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Meu Perfil BRASIL, Sudeste, Homem, de 36 a 45 anos, Portuguese, English
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Blog do Marcio
Saudade
A saudade é uma manifestação cretina! Principalmente pra quem tem mais de trinta. Explico:
A saudade é a nostalgia cafona daquilo que tivemos, ao invés dela prefiro a melancolia, que é a sensação possível de falta daquilo que não tivemos.
No poema de Manuel Bandeira que mais aprecio, o poeta pergunta onde estão todos eles, após uma festa de são João. Estão todos dormindo, profundamente.
Ontem, na mesa do bar, relembramos muitas coisas, figuras que fizeram parte da minha vida, algumas só deixaram um rosto, outras deixaram palavras, a maioria deixou nome, CPF e endereço e depois, como naquela canção infantil, disseram adeus e foram-se embora.
E juntando esses pedaços que cada um deixou comigo, deu um bom papo de boteco e acabei lembrando de Manuel Bandeira, e me perguntei onde estariam todos eles!
No fim, percebi que a única coisa que tinham deixado de fato era a memória e finalmente entendi porque abomino a saudade.
Categoria: TEXTOS
Escrito por Marcio às 19h23
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Teste Definitivo
Em criança, ouvia dizer que, na noite de São João, pode-se pisar descalço nas brasas da fogueira, desde que seja à meia-noite em ponto. Não me lembro de ter conhecido alguém que tivesse praticado a milagrosa experiência. Mas era um fato indubitável, garantido pelo relato oral de gerações. Citavam-se casos.
O assunto não é caminhar sobre brasas, cito a lenda pra falar de amizade e do ato de confiança que norteia ambos.
Nos dois é preciso ter fé. Dos amigos necessitamos acreditar que em momentos de imperfeição, ao invés do tradicional tapinha nas costas recebamos as palavras de repúdio, aquelas palavras que só quem realmente nos queira bem podem dizer.
É comum, sobretudo no orkut, intitular-se amigo pelo simples fato de convergência de gostos. Freqüentar as mesmas festas, gostar das mesmas músicas, compartilhar idéias e levar uma vida igual não constituem prova de fé. Infelizmente, o que vemos na maioria esmagadora dos casos é o apoio incondicional e às vezes até incentivo a atos pouco saudáveis, inclusive àqueles que não gostaríamos que praticassem conosco,
Bem verdade que conquistar uma amizade, nos dias de hoje, é tarefa talvez mais difícil do que pisar em brasas.
Pense nisso quando for considerar alguém seu amigo, inclusive eu. Um pouco de estoicismo e fé não fará mal a ninguém!
Categoria: TEXTOS
Escrito por Marcio às 13h20
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RÉQUIEM
Invejo cordialmente aqueles que costumam fazer uma declaração ou um discurso dizendo que não têm palavras para expressar isso ou aquilo. Cultivo o mau hábito de ter palavras para tudo, e muitas palavras por sinal. Por pior que elas sejam, sempre imaginei que nunca seriam piores do que os fatos em si.
Exceto por aquele dia quando dona Genny se despediu de nós. Quem quer que tenha inventado a despedida, foi um benemérito. Já ouvi dizer que a maior invenção da humanidade foi a roda, mas, honestamente, prefiro a despedida à roda, que rodam por aí e não nos levam a lugar nenhum, enquanto a despedida, sempre nos leva a outros desafios.
Mas naquele dia, diante da iníqua sorte que nos espera, justos e injustos, embora tivesse palavras para todos e para cada um, preferi falar sozinho porque achei que assim seria mais bem entendido.
Sentia-me massacrado pelo nada que a realidade criava em torno de todos nós e que, afinal, era tudo porque era o momento. Em minha conversa particular, como um estrangeiro que mal tinha aprendido o português, não usava verbos, usava apenas substantivos. Descrevia aquela tarde misturando alguns desses substantivos: tragédia - dor - alegria. Para mim, alegria não era apenas companheira da tragédia e da dor, era uma causa. Causa que vinha de um encontro de menos de um minuto, tempo suficiente para me cativar com seu sorriso suave. E o tempo continuou passando, eu é que não sabia o que se passava, nem mesmo os substantivos traziam algum sentido.
Lembrei de uma cena do “Macbeth”. Ele encontra três bruxas mexendo num caldeirão e pronunciando palavras estranhas, palavras de bruxa mesmo. Macbeth pergunta: “What is 't you do?” (O que estão fazendo?). As bruxas respondem: “A deed without a name” (Uma coisa sem nome).
É isso aí. O troço que estava sentindo era uma coisa sem nome. Como dar nome a uma mistura de quase dor, saudade antecipada, lembranças de um encontro de menos de um minuto e uma falta insuportável do que dizer?
Pronto! Não precisava mais invejar aqueles que não têm palavras. Afinal, dona Genny em sua despedida embutiu meu maior desafio, fez-me sentir uma coisa sem nome!
Categoria: TEXTOS
Escrito por Marcio às 11h42
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Receita de pobreza
Sou leitor compulsivo, principalmente de biografias. Descobri analogia importante na vida de grandes homens que, de certa forma, explica muito da minha.
Louis B. Mayer: “Passou a infância catando lixo nas ruas de New Brunswick, no Canadá. Aos 22 anos comprou um velho teatro em Haverhill, Massachusetts. Oito anos depois era o maior salário dos Estados Unidos".
Comparo o sucesso dele com o meu fracasso. Não catei lixo pelas ruas do Brás. Aos 19 anos, catava idéias. O lixo no Canadá deve ser fecundo, dá para juntar dinheiro e comprar um teatro. Aqui no Brasil, catadores de lixo ou de idéias mal conseguem comprar a cesta básica.
Volta e meia medito sobre as razões que me impediram de ganhar os milhões de dólares que nunca tive. Termino sempre na constatação de que não catei lixo, não varri assoalhos de bancos, início de carreira de banqueiros bem-sucedidos.
Onassis catou pontas de cigarro nas ruas de Buenos Aires. Rockfeller começou a vida vendendo perus, tudo isso ficou faltando na minha biografia e no meu inexistente sucesso.
Não tive bolas de futebol, bicicleta e outros sinais exteriores de abastança, vivi na base da situação “remediada”, ou seja, cheia de remédios para sobreviver sem catar lixo e vender perus. Aos 19 anos, sabia inglês e entendia de finanças. Fui ganhar o piso salarial de auditor, que era mais um piso do que um salário.
Numa dessas conversas sem assunto específico, o amigo quis saber se eu já estava rico. Estranhei o “já”. Respondi que continuava remediado, isto é, cheio de remédios.
Não catei lixo, não vendi perus, não varri escritórios, deixei de cumprir regras essenciais para exercer o ofício de rico.
Restava a apelação do dr. Fausto: vender a alma. Vendi-a antecipadamente. O dr. Fausto queria juventude. Eu queria um telejogo, tataravô dos videogames atuais. Até hoje não entendi por que o Diabo topou o negócio com Fausto e nada quis comigo. Se vier ao mundo outra vez, em vez de vender a alma vou tentar vender perus.
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Escrito por Marcio às 11h34
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Vigília
Vez ou outra sofro de um mal que ataca muita gente por ai. Perco completamente o sono. Não chega a ser caso médico. Como a memória e a poupança, a insônia precisa ser administrada para render.
Da insônia nada se pode esperar, a não ser desperdício e fadiga. O problema resulta semântico: transformar a “insônia” em “vigília”. No fundo, é um truque, como em tudo o mais.
Ontem, vigiei o sono dela. Olhei-a como nunca a olhara, observando-a indefesa, o corpo pousado na cama como um fruto branco e comprido, descobri ângulos em que nunca reparara antes, a cabeça repousada sobre a palma da mão, a curva macia dos ombros, a nuca cheia de uma penugem cor de ouro, as pernas encolhidas, cujo joelho encostava-se ao meu.
Bem, não foi a primeira vez que a tive ao lado, nada havia de espantoso, tudo parecia sabido. Ainda eram as mesmas curvas, o mesmo jeito de encolher a perna, a mesma violência nos quadris, até mesmo o cheiro igual da noite e do sono. Mas ontem foi diferente. Não que fosse tão súbita assim, apenas foi mais inesperada. E agora, com a vantagem de estar vigilante, e não insone, revivi a história de nossas vidas. Reencontrei na memória aquela menina curiosa que escolheu conhecer o mundo ao meu lado.
E ela continuou a dormir, com a curva violenta dos quadris, a maciez dos ombros, a penugem cor de ouro na nuca, a cabeça repousada na palma da mão. O que havia dentro daquilo tudo? Eu sabia. A resposta estava na cara. A mulher ainda era a menina em ponto maior, logo, com maior curiosidade. Tal como no passado, ela quisera ver o mundo como era ou como podia ser, mas desta vez sem ter um ponto de apoio.
Se é dolorosa a mistura da insônia com a constatação de que somos cada vez menos, é doce a combinação da vigília com aquilo que temos. Beijei de leve a boca dela e a desejei mais uma vez.
Categoria: TEXTOS
Escrito por Marcio às 16h19
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22 de maio
Vai soar estranho! Declaro-me agnóstico, não aceito a idéia de um Deus filosófico, moral ou religioso, mas sou devoto - e bota devoto nisso - de alguns santos do nosso calendário tradicional. Pode e deve ser uma contradição, até mesmo uma aberração. Mas continuo na minha.
Deus é um conceito ou uma entidade distante demais para os meus recursos e até mesmo minhas necessidades. Já os santos e santas, porque foram terrenos, com os mesmos alicerces de barro de que fui feito, merecem mais do que a minha admiração. Merecem mesmo a minha devoção.
Santa Rita, cujo dia hoje se comemora, é uma delas. Chamada santa dos impossíveis, advoga sempre nos casos de desespero.
Já iniciou a vida em milagre, pois sua mãe contava à época com 62 anos de idade, depois se casou, para atender aos desejos de seus pais, com um homem tido como perverso e mau, não tardou em transformá-lo em gente boa e caridosa.
Enterrou os pais, o marido convertido e os filhos que, aparentemente, também se desviavam. Tentou por anos ser aceita pelas agostinianas e por anos foi rechaçada até que o próprio Santo Agostinho lhe abriu as portas do convento.
À beira da morte fez brotar rosas e nascer figos em pleno inverno europeu e por fim curou o carpinteiro, único disponível nas redondezas, para que pudesse construir seu caixão.
Como não acreditar numa santa dessas, que, de quebra, ainda me ajuda a quebrar meus galhos?
Categoria: TEXTOS
Escrito por Marcio às 12h01
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Espera
Liturgia das minhas manhãs (e de algumas noites): quando te vejo entrar no banho, encontro meu canto e desabo. Sei que vai sair, só nos veremos mais tarde. Fecho os olhos e espero. Você é a única pessoa a quem realmente espero.
Em dias de folga a liturgia é de festa. Sei que é folga porque te vejo ao meu lado, sonhando, e somos felizes por que estamos juntos.
Quando nós estamos longe, encaro o tempo como se fosse um dia: distribuo cientificamente as horas –manhã, tarde e noite– e espera. Sei que, ao cair a noite ou amanhecer o dia (depende), a porta se abrirá e a mulher –você– chegará. Do outro lado da corda, estou eu, esse "homem" que não possui nada, nem a si mesmo. Pior para mim: tudo que sou cabe nesse "homem". O resto é o resto –acho que foi Hamlet quem disse: o resto é silêncio. É por aí mesmo.
Bem, tenho você, sei que as portas do inferno não prevalecerão contra mim: eu te espero. À minha maneira, também vou à luta, fecho os olhos e aguardo o momento da chegada.
Você tem um jeito doce de olhar com seus olhos cor de mel que combinam com seu sorriso bonito. E sempre é bom chegar: nas partidas, deixo com você a melhor parte de um homem que nunca teve uma parte melhor.
Categoria: TEXTOS
Escrito por Marcio às 10h15
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Zero maiúsculo à esquerda
Garantem que o maior ódio da história, a se acreditar em Shakespeare, foi o que separou Montecchios e Capulettos em Verona. Se o bardo conhecesse meu ódio pelos cretinos em geral e por um cretino em particular, teria feito peça melhor.
Daí que mesmo correndo o risco de não entrar no reino dos céus nem passar pelo buraco de uma agulha, conforme rezam as Santas Escrituras, resolvi alimentar esse ódio redigindo o perfil desse cretino.
Feito o esboço, verifiquei que tinha uma vantagem suplementar, a de servir igualmente a todos os cretinos.
O cretino, sempre que puder, e mesmo quando não puder, confidenciará mentiras aos amigos, para se vangloriar de feitos para os quais não tem capacidade.
O cretino desmentirá as próprias mentiras para fugir de qualquer sufoco que elas tenham criado.
É importante que o cretino dê provas de amplidão espiritual e moral. Não se sabe o porquê, mas parecer um sujeito valente dá a exata conta desta amplidão.
Duas vezes por dia, às vezes três, o cretino pensará que ele estava certo, mesmo errado, e que por isso não precisa nunca pedir desculpas.
O cretino será adepto da comunicação internáutica, das pesquisas de mercado, do amor gratificante, da formação de uma boa imagem, do diálogo não-ideológico e da globalização dos resultados.
O cretino desprezará a família e os bons costumes. Dirá que faz o que bem entende da própria vida até que esse comportamento destrua sua família, o que lhe dará munição para ser vítima das circunstâncias e sair por ai desprezando a família e os bons costumes.
O cretino será otimista, acreditará no século 21 e denegrirá a obra musical do Tiririca. Preferirá o cinema de Spielberg, aceitando como válida a experiência do besteirol, desde que em cores. Mas assistirá às escondidas as comédias do canal Sony e os desenhos animados japoneses.
O cretino repudiará o fumo e os refrigerantes que não sejam diet, mas não enxergará problemas em espreitar mulheres comprometidas.
O cretino estará preocupado com os problemas do mundo, proclamará a iminente decadência da civilização judaico-cristã e, nas horas vagas, prometerá que um dia irá mudar de vida.
Quando indagado sobre a sua bebida preferida, o cretino responderá com desdém: ''cerveja, logicamente''. A cretinice não está em gostar de cerveja, mas no logicamente, o que é lógico.
E, com tanta lógica, sejamos ilógicos: o cretino é um santo às avessas, que precisa apenas de um pouco de sabão e de cartilha para se transformar num sujeito aproveitável.
Categoria: TEXTOS
Escrito por Marcio às 13h29
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"Mea Culpa"
Acusa-se o cristianismo, herdeiro do judaísmo, de ter inculcado no homem um abominável sentimento de culpa. Bater no peito e proferir o condenável ''mea culpa'', segundo alguns psicólogos, é o ponto de partida para traumas e conflitos que desgraçam o homem.
Na outra ponta da corda está a supervalorização da inocência. Lula se diz inocente, Collor dizia-se inocente, Garotinho anda dizendo que é e está inocente. Relembrando Machado de Assis: tudo é possível.
Mas devo dizer aos senhores membros do conselho que na obrigação de suar o rosto para ter o direito de barbeá-lo no dia seguinte, sempre segui o caminho da verdade.
Em verdade, tudo começou há muito tempo na fila para a confissão antes da primeira comunhão. O padre era um italiano alto, vermelho - a gente não dizia “vermelho”, mas “encarnado”. Notável era o seu sotaque carregado e sua moral carregadíssima. Temíamos a violência de sua cólera e a rigidez de sua virtude.
Recomendaram-me que fizesse severo exame de consciência a fim de eficientemente ser perdoado. Inventariei mentiras e desobediências. Não precisei fazer greve de fome para provar minha pureza, em meu caminho não constava nenhum vexame, imundícias da carne ou patifarias maiores.
O colega à minha frente ajoelhou-se diante do padre. Em voz baixíssima murmurou seus pecados, que não deviam ser muito diferentes dos meus. De repente, ouvi o ameaçador sotaque do italiano: "E o menino pensa que pode enganar a Deus?".
Pronto. Pintara sujeira no pedaço. E já que não podia enganar a Deus, resolvi enganar o padre. Decidi reduzir minhas faltas a uma surra que dera num guri mais fraco do que eu e umas vidraças quebradas, sem necessidade, só por molecagem. Era uma quota de crimes decente para um menino de dez anos, mas não adiantou. Com o sotaque medonho, reforçado por horrendo hálito de repolho, antes mesmo que eu conseguisse desfilar o rosário de meus pecados ele me fulminou: “E o menino também acha que pode enganar a Deus?”
Lembro que sai daquela igreja com os joelhos doendo. Ao menos aprendi que assumir a culpa de um erro não infelicita o ser humano. Muitas vezes o redime.
Categoria: TEXTOS
Escrito por Marcio às 11h09
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As caldeiras do inferno
Uma historinha que li não sei onde, envolvendo um padre e o Diabo, serve para ilustrar o que está acontecendo na minha vida nos últimos tempos.
O padre foi chamado para exorcizar um cara que estava possuído pelo demônio. Quando começou o exorcismo, dizendo as palavras rituais e preparando-se para jogar água benta em cima do endemoniado, o Diabo, como é praxe nessas situações, começou a soltar os podres do exorcista: “Quem é você para mandar em mim, seu filho... Você é pedófilo, estuprador de freiras... e o dinheiro que roubou da caixinha das almas? Pensa que eu não vi? E aquele garoto que você diz que é seu sobrinho, mas é seu amante? Então é você que vem me expulsar, sendo pior do que eu?”.
O padre esperou a revelação dos podres, mas, antes de jogar água benta em cima do endemoniado, fez uma cara de alívio. Urrando, fazendo um esporro dos diabos, o Diabo deu um uivo terrível, mas obedeceu ao "vade retro" que o mandou de volta às caldeiras do inferno.
Outros padres que assistiam ao exorcismo repararam no alívio do exorcista depois de revelada a extensa lista de podres que o Diabo lhe atirara na cara. Perguntaram por que ficara tão satisfeito. O exorcista explicou: “Este Diabo é camarada, é um pobre diabo, que não sabe de nada... se soubesse de tudo...”
Não pratico nem pratiquei exorcismos, não faz meu gênero expulsar o Diabo dos outros ou de mim mesmo. Mas um desocupado que me manda e-mails de vez em quando está como o pobre diabo da historinha que contei.
Preocupado em revelar os meus podres, ou pouquíssimo sabe de mim ou sabe e piedosamente me poupa. Não disponho de água benta para jogar em cima dele e, mesmo que dispusesse, não faria isso. Pelo contrário: se pudesse, faria alguma coisa para tirá-lo das caldeiras do inferno em que está vivendo.
Categoria: TEXTOS
Escrito por Marcio às 12h38
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De novo o três
Dia desses escrevi sobre o número três, volto ao tema. Não sei se foi Vieira ou Bernardes (a preguiça me impede de pesquisar) que criou a seguinte imagem sobre a salvação da alma.
Suponhamos que um de nós se perca a noite numa floresta habitada por feras esfaimadas e precise acender uma fogueira para espantá-las e aquecer-se. Junta os gravetos necessários e só então descobre que tem apenas três fósforos na caixa que julgava cheia.
Acende o primeiro, e o vento o apaga. Acende o segundo com mais cuidado, o fogo brinca por um instante na cabecinha de madeira, mas, quando se abaixa para acender o graveto mais seco, a chama de repente se apaga.
Sobra-lhe o terceiro e último fósforo. Com que cuidado ele não usará esta última esperança de uma noite segura e aquecida? Sabe que qualquer descuido, um vento, um gesto brusco, uma indecisão repentina e poderá perder a última fonte de luz e calor para a difícil noite que tem pela frente. Todo cuidado será pouco.
Ao longo e aos trancos da vida, já queimei inúmeras vezes os dois fósforos que nunca me abasteceram de luz e calor. Fósforos breves, de chama pouca e calor escasso. Nada aproveitei deles. Entretanto, nunca os considerei perdidos.
Categoria: TEXTOS
Escrito por Marcio às 16h30
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Três
Custou, mas descobri o truque usado pelos gênios, por aqueles que parecem entender realmente de um assunto, seja ele qual for. Não é necessário saber muito, nem ao menos o básico. Basta dividir o problema (ou o próprio assunto) em três partes.
Dou um exemplo: o que é uma caneta? Caneta é um objeto dividido em três partes: a pena, a tampa e a caneta propriamente dita. A pena serve para escrever, a tampa serve para tampar não apenas a pena, mas a própria caneta, e a caneta propriamente dita é o núcleo, o eixo.
Basta fazer esta divisão em três partes e o sujeito já é considerado um mestre, um oráculo em matéria de caneta. O auditório fica predisposto a acreditar em tudo o que virá pela frente.
Foi por isso que César, ao escrever sobre sua campanha mais famosa; começou dizendo que a Gália é dividida em três partes. E a maioria dos dramas escritos para o teatro são também divididos por três atos, a exposição, o conflito, a solução.
A lógica de Aristóteles, que até hoje prevalece, dividiu a operação da mente em três partes, a apreensão, o raciocínio e o juízo resultante. Três são as pessoas da Santíssima Trindade e, nas disputas em geral, quando a coisa engrossa, apela-se para a melhor de três, que se torna definitiva, inapelável.
Um doutor da Igreja, acho que Santo Ambrósio, dizia que é o número perfeito. Nos leilões, a terceira batida do martelo encerra a questão, dando tempo a que os pretendentes pensem melhor sobre os lances anteriormente dados.
Aquela Terezinha de Jesus da canção infantil, que de uma queda foi ao chão, teve três cavalheiros que a acudiram. O primeiro foi seu pai, o segundo, seu irmão, o terceiro foi aquele a quem Teresa deu a mão. Geralmente é o terceiro que, de certa forma, nos salva, embora a gente sempre caia de novo, logo em seguida, até a queda final e inarredável.
Três também são as palavras que jamais me cansarei de dizer a ela, e dela espero ouvir para sempre: EU TE AMO!
Categoria: TEXTOS
Escrito por Marcio às 10h47
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Terra de Gigantes
O Gov. de São Paulo, Geraldo Alckmin, distribuiu recentemente cerca de 900 ambulâncias aos hospitais estaduais de cidades do interior. Até aí tudo bem, até de se esperar para quem está em plena corrida eleitoral. Não fosse um “pequeno” problema, com o perdão do trocadilho que vocês entenderão a seguir.
As ambulâncias em questão não podem ser utilizadas por quem tem mais de 1,60m de altura!!! Isso mesmo, alguém teve a brilhante idéia de economizar uns tostões adaptando um carro que não comporta pacientes deitados que sejam maiores do que uma criança de 12 anos! Casos graves então, nem pensar, mesmo que o infeliz pudesse ser colocado com os joelhos dobrados, não há espaço adequado para que um médico ou enfermeiro acompanhe o paciente durante o trajeto.
Pode até parecer perseguição aos tucanos, o que não nego nem confirmo, só para seguir a linha de pensamento dos políticos, mas todos terão de concordar comigo que isso foi puro descaso, para dizer o mínimo.
Imaginando que a briga interna com o companheiro de legenda Serra seja vencida e que Alckmin de fato seja o candidato oficial do PSDB, esse fato será certamente uma pedra no sapato do governador.
Se fosse comigo, como tenho vergonha na cara, mandaria um "addio senza rancore", como em "La Bohème", de Puccini, aos que ficavam. E deveria também desejar tudo de bom, pedindo desculpa por qualquer coisa de minha parte, foi sem querer. E, como as crianças que são surpreendidas pela mãe fazendo o que não devem, prometeria não fazer mais, o que me daria direito a continuar fazendo o que tivesse vontade.
No mais, depois de citar o terceiro ato de "La Bohème", usaria um velho chavão que era comum ser usado por jogadores de futebol quando estavam no estrangeiro e tinham a oportunidade de falar ao microfone das rádios de antigamente: aproveitaria a oportunidade e mandaria um abraço aos meus familiares.
Categoria: TEXTOS
Escrito por Marcio às 10h37
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Río del Plata
Ontem tive uma reunião de 4 horas com um argentino. De minha parte, como bom brasileiro, detesto os argentinos. E nada melhor para irritar um argentino do que insinuar que Gardel era Francês, aproveitei para mencionar uma viagem que fiz em 2003 a Buenos Aires, que por sinal não era Buenos Aires, mas Ciudad de la Santísima Trinidad y Puerto de Nuestra Señora Santa Maria de Buenos Aires. Sabiamente abreviado pelas agências telegráficas, o nome foi reduzido a apenas Buenos Aires.
Fui a trabalho, mas um providencial extravio da minha bagagem deu-me toda a tarde de uma segunda-feira livre, estava a metros da Plaza de Mayo, da Casa Rosada e do antigo Congresso Nacional, onde me deparei com uma biblioteca que conservava a fachada do século XIX (como em vários prédios da Capital). Não pretendo cometer uma ontologia do gênero, mas encontrei um livro de José Lino Grunewald onde pude entender, através do tango, toda a amargura que arde no peito de nossos vizinhos.
Maior expressão da arte popular, o tango foi produzido no virar de um século em que a Argentina e, sobretudo Buenos Aires, estavam no topo, eram um pedaço da Europa civilizada e rica num continente miserável.
Para início de conversa, o cara é traído pela mulher, mas paradoxalmente ainda é noivo e tem a madre doente e em extrema penúria. Os filhos da madre são órfãos de padre y madre e passam fome. São os hermanos pequeños do sujeito que, além de filho da madre e noivo, foi antecipadamente traído pela esposa que fugiu com seu melhor amigo. Mas aí entra o padre que é borracho contumaz e, nesse dia, está borrachíssimo para olvidar a hermana da madre que foi sua loca passión de juventud.
O padre borracho, diante da madre e dos filhos órfãos a priori, enforca-se no justo dia do noivado do filho. Mas a noiva do filho é arrebatada por outro pérfido amigo que, além da mulher e da honra, rouba-lhe a carteira e a saúde.
Em desespero, o sujeito corre ao leito da madre em busca de lenitivo. Numa golfada de sangue, a madre exala o último suspiro. Os hermanos pequeños querem pão, a esposa abandona os filhos na negra miséria e vai dançar seminuda no cabaré.
Enganada por seu raptor, a noiva cai na sarjeta de las calles. O resultado final é impressionante: o cadáver do padre pendurado na porta, balançando ao vento gelado que vem do rio, a madre morta na cama, os hermanos berrando de fome, la novia fazendo a vida na calle e a esposa, seminuda ou nuda a essa altura dos acontecimentos, dançando milongas no cabaré mais escrachado da Boca.
O desgraçado não tem sequer aquele remédio que Manuel Bandeira receitou para os tuberculosos desenganados: ''A única coisa a fazer é tocar um tango argentino''. Ele já o está tocando.
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Escrito por Marcio às 12h37
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O diabo é um otimista
Ainda vão descobrir quem jogou essa droga de menina na lagoa!! A frase foi dita por uma mãe, não uma mãe qualquer, mas a mãe da pequena Letícia, que sobreviveu ao nascimento prematuro, depois sobreviveu a 30 dias de terapia intensiva e, como se não bastasse, sobreviveu a não se sabe quanto tempo boiando na lagoa da Pampulha embrulhada em um saco de lixo e amarrada a um pedaço de madeira.
Presa em flagrante, a mãe jura inocência, afinal ela “apenas” deu a própria filha a moradores de rua. Do alto das minhas 36 primaveras pensava ter visto de tudo, nasci no auge do milagre brasileiro, passei por planos econômicos, cortei zeros da moeda nacional, saí do meu canto pra conhecer o mundo e mesmo assim as páginas dos noticiários ainda me surpreendem.
Dizem que a grande pretensão do diabo é fazer do homem pior do que ele já é! Definitivamente, o diabo é um otimista.
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Escrito por Marcio às 09h04
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